ESPAÇO PUBLIQUE

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Pr. Sandro Pereira

Pastor da Primeira Igreja Batista em Rosário-MA

PLANTANDO IGREJA OU MARCANDO TERRITÓRIO?

Na minha experiência como pastor, missionário e professor já pude ver as igrejas, seminários, pastores e denominações desenvolverem obras boas, ruins e péssimas. Usar a expressão “obras péssimas” parece um tanto extremista, porém me refiro as obras de péssima qualidade que não deveriam (nunca) ter acontecido. Não crítico gratuitamente as pessoas que de bom coração querem fazer algo para o crescimento do Reino — mesmo de maneira equivocada.

Obras ruins e péssimas são resultados do conhecimento raso do Evangelho por parte da comunidade evangélica (digo raso para não dizer outra coisa). O evangélico do século 21 tem um conhecimento superficial e vergonhoso — dificilmente suporta um debate ou resiste a um confronto de ideias religiosas — é imaturo.

O interesse da igreja evangélica atual é 99% centrada nela mesma. A igreja organização sobrepôs a igreja espiritual. Todos os movimentos, eventos, métodos, metas e objetivos miram a própria igreja, que com a condução do seu pastor buscam satisfazer seus próprios interesses. A glória de Deus pode ser um efeito colateral aceitável. Duvido que algum pastor ou líder de Igreja admita isso. Porém, na prática, é isso acontece. É preciso ser muito crente para admitir isso.

Quando falo sobre marcar território (título) me refiro ao que acontece com as denominações evangélicas, e também com a minha denominação: Os Batistas Brasileiros. Nós também queremos e gostamos de marcar território, e vergonhosamente usamos a diretiva de que precisamos ter um trabalho batista em cada bairro, cidade e estado — mesmo que os bairros, cidades e estados estejam entupidos de igrejas evangélicas. Eu aprendi que plantar igreja é para os locais onde não existem igrejas — nenhuma. Se um local já tem um número grande de igrejas, para que plantar mais? Não seria o plantar (nesse caso), o mesmo que marcar território?

Quando saio como meu cachorrinho vira-lata para dar um passeio ele vai (sempre) passeando e fazendo xixi nos locais. Ele faz isso para marcar o seu território, deixar seu cheiro mesmo sabendo que outros cachorros já passaram por lá. E a ideia do meu vira-lata é bem clara mesmo: por sua marca nos locais por onde passa. Sei que a comparação é tosca, mas sempre que vou passear com o vira-lata penso nisso.

Voltando a (i)maturidade evangélica, parei de pensar e passei a crer que, não precisamos plantar mais igrejas (batistas) em nosso estado e porque não dizer no nosso país. Precisamos revisar nossos conceitos, rever nossos planos, qualificar nossos obreiros, ensinar (de verdade) os crentes batistas, revitalizar as igrejas existentes, capacitar ou trocar os obreiros que lideram as igrejas (alguns devem sair do campo e do ministério urgente). Devemos pedir perdão a Deus pela nossa motivação equivocada, pelo nosso perjúrio bíblico, pela falta de preparo. Inclusive, sobre preparo, acho inadimissível colocar um obreiro a frente de uma congregação ou igreja sem uma formação sólida e consistente. E por conseguinte, também acho inadimissível aceitar um professor de seminário ou faculdade sem experiência na matéria que ensina. O resultado dessa falácia sempre será a produção de obreiros igualmente fracos, rasos e teóricos.

Creio que já passou da hora de ter coragem de aceitar e encarar nossos erros. Já passou da hora de jogarmos a politicagem no lixo. Já passou da hora de aceitarmos que trocamos o pastoreio por gestão; a igreja por empresa; as ovelhas por associados; os dízimos/ofertas por receitas que sustentam estruturas.

E, quando penso sobre o trabalho de missionário da nossa denominação e das outras, sinto vergonha e repulsa. Somos totalmente sínicos sobre esse assunto. A Grande Comissão é, para a maioria, uma Grande Omissão. Vejo alguns alguns movimentos, eventos, palestras e conferências rodando nosso estado e país tratando de missões, plantação de igrejas, etc. Mas, perdão pela sinceridade, acho tudo mas isso um grande mercado, quase tudo não passa de nada x nada, são caça níqueis, meios de encher os bolsos de alguns poucos e de entreter massas.

Desafio esses palestrantes a fazer tais eventos na Amazônia, No vale do Ribeira, no Vale do Jequitinhonha, na Nicarágua, na Guatemala, em Honduras. Mas com a seguinte condição: Tem que pagar a própria passagem, estadia, transporte, refeições. Tem que produzir material, imprimir, traduzir quando for o caso, levar e entregar de graça. Tem que fazer campanha para arrecadar recursos para levar ao campo e construir casas, prédios, templos, comprar carros para obreiros, dar treinamento, capacitação e tudo de graça. Tem que se “humilhar” e pedir ajuda as igrejas, pastores e irmãos — passar vergonha, sofrer comentários perjorativos e lidar com críticas — e ainda aguentar o sarro de pastores e lideres. Tem que fazer tudo isso sem reconhecimento, sem holofote, sem status e sem retorno financeiro — as vezes com dívidas. Fazer tudo isso sem ter respaldo de organizações e empresas. Com a cara e a coragem.

Concluindo, quando ouço falar de plantação de igrejas no século 21 minhas entranhas torcem. Porque sinto o cheiro de marcação de território.

Quando alguém quiser falar comigo de plantação de igrejas e missões, não venha com churumelas. Não suporto blá blá blá.

Abraço
Pr Sandro Pereira

 

 

 

 

 

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